portraits
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Entre tragos - making of
Manjê - Mercê
Agosto de 2016
Sonhei com uma estrada ladeada de árvores altas, de troncos escuros e folhas vibrantes com o vento. No horizonte um facho de céu que crescia a medida que eu me aproximava. E eu era rápido. Não havia curvas.
catálogo para filha da norma
caraíva, II
no entardecer
Muita gente ficou espantada quando eu disse que iria participar de um bloco de carnaval esse ano. Principalmente os meus amigos, que sabem muito bem da minha completa falta ânimo e de preparo físico para fazer qualquer coisa.
No entanto, essa experiência tem sido muito maior do que apenas fazer algo completamente fora da minha zona de conforto.
É um ato ético-político.
Carregar esse trambolho pela cidade só tem valido a pena porque é para contribuir, aos pouquinhos, para a criação de um ambiente seguro e saudável para nós. Pretos.
Aprender do zero a tocar um instrumento de percussão e, apesar da falta de jeito, efetivamente conseguir tirar um som coerente dele é para mim um exercício constante de disciplina, concentração, humildade - e não no sentido piegas da coisa.
Humildade porque, até esse momento, o conceito de Ubuntu nunca tinha ficado tão bem exemplificado. A minha militância fora do virtual ganhou mais sentido quando eu finalmente percebi que a medida que o meu desempenho melhora, o bloco inteiro ganha com isso.
Além do mais, o bloco se transformou em um lugar de encontro. Encontro com o outro, tão diferente e ao mesmo tempo igual a mim. Encontro com pessoas com quem não tenho nenhuma intimidade, mas com quem uma troca de olhares é o suficiente pra sabermos que, apesar de toda dificuldade, estamos no lugar certo, no nosso lugar, fazendo a coisa certa. Sorrimos ao invés de nos curvar.
É resistência.
A cada ensaio eu ganho mais e mais arranhões nos dedos e nas pernas. Minha coluna de idoso já pediu arrego depois de tanto cataflan e eu não sabia que conseguia perder tanta água sem que o meu corpo entre em colapso e pare de funcionar.
Mas por algum motivo, por alguma coisa que eu ainda não sei dizer o que pode ser e mesmo com todo o cansaço, a cada ensaio eu “espanco” aquele surdo cada vez com mais convicção e força.
Domingo a terra vai tremer.
(Edit: E tremeu).
estou em casa e aqui têm chovido bastante.
há alguns anos esse sentimento de estar seguro e despreocupado certamente estaria ligado a um lugar, um endereço, uma coordenada geográfica. hoje, no entanto, ele não poderia estar mais longe disso.
a segurança não vem mais em formato de paredes sólidas. a calma não vem das janelas fechadas, impedindo a invasão dos ruídos da rua. a liberdade não tem mais a forma de uma porta entreaberta, uma palavra engasgada, que a qualquer minuto pode se fechar.
embora pareça que eu tenha esquecido, o meu lugar de respiro nunca foi exatamente um lugar. é mais do que isso, é maior e mais preciso do que o encontro de latitudes e longitudes no mapa. é um zumbido no fundo do ouvido, tão contínuo que quase vira silêncio. é o cheiro doce das folhas da mangueira. é a chuva forte castigando o telhado e dando vida à vegetação.
estar em casa é compartilhar da presença dos meus pais.